Que bela abertura.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Ontem tivemos tanto trabalho, tanto trabalho que alguma alminha teve tempo de pensar....
"E se fossemos ver o Avatar"?
"Ah ah ah...seria bem pensado, mas..."
"Mas o quê?! Vamos!"
"És louco...ir à sessão da meia noite e meia?! o filme são três horas!"
"E então? Amanhã só fazemos noite."
Bem foi mais ou menos assim que começou...conversa puxa conversa...vai não vai...lá nos decidimos a ir.
Chamadas para aqui, mensagens para ali e a hora do final do turno a terminar...o Cliozito à disposição e lá fomos em direcção ao Cinema.
Preparados, alinhados na mesma fila de oculos postos, pipocas e bebidas à frente e o filme que comece antes que me dê o sono...
E lá começou ele...superou todas as minhas expectativas...muito muito bom. Três horas?! No problem...pode prosseguir sem intervalo que isto está bom...
Depois de deixarmos o "Tide" em casa e de lhe termos mandado uns quantos piropos para ele continuar a ser o mesmo vaidoso de sempre. Ainda nos conseguimos perder no regresso....pois claro...ou não seria eu a conduzir. Verifiquei portanto que a Catita não é de facto uma boa co-piloto.
Aconselho mesmo a verem o Avatar no cinema...o pormenores merecem a pena.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Hoje apetece-me escrever...como não quero e não devo escrever aquilo que não me sai da cabeça, la vou soltando aqui uns quantos desabafos.
"As pessoas estão a desabituar-se de pensar; e quando chegam a conclusões diferentes das da maioria, acham que se enganaram."
António José Saraiva
Ora aqui está...é isto mesmo que agora sinto. Se bem que tenho a diferença da minha tutora concordar comigo...ou melhor...ela quer à força que concorde com ela...o pior é que antes de lhe dizer o que quer que fosse já eu concordava...ai... sim senhor António...às vezes mais vale parar de pensar, porque pensar em disparates só faz mal à cabeça e ao coração.
"Ao longo da vida vamos frequentando locais diferentes, conhecendo pessoas diferentes, fazendo amizades diferentes - e, embora as memórias desses encontros perdurem pela vida fora, e os amigos continuem a ser amigos, não deixa de ser verdade que o tempo faz as suas mossas e os sentimentos se diluem. Dito de um modo mais cru, as amizades - regra geral - correspondem a épocas da nossa vida e vão perdendo significado. Os amigos têm um espaço e um tempo. Poucos amigos são eternos."
José António Saraiva, in Tabu n.º172
Aqui sim concordo...Já foram tantos os amigos que fiz e que de uma forma ou de outra foram ficando para trás. Lembro-me dos meus amigos da velha aldeia, aqueles com quem fazia cabanas, andávamos de bicicleta, partilhávamos segredos e asneiras, todos os Verões tínhamos o mesmo ponto de encontro e lá estávamos sempre nós, recordo-me de cada cara de cada nome e de muitas aventuras partilhadas. Agora, são breves as noticias que vamos tendo uns dos outros.
Recordo algumas grandes amigas da primária e da preparatória, que sendo dignas de toda a minha amizade pelas circunstancias da vida ficaram para trás...delas recordo as brincadeiras, as gargalhadas libertadas em alta voz e as cartinhas escritas quando a distancia nos quis começar a separar.
Da faculdade recordo cada momento de boa disposição, cada final de turno...aqueles dias em que só apetecia chorar logo pelas 7h30 onde nos encontrávamos à porta do serviço receosas de tudo o que nesse dia poderia acontecer.
Recordo os momentos felizes e também as desilusões que levaram de mim mais umas quantas amizades que eu julgava para a vida.
Dos Bombeiros...bem dos bombeiros, guardo cada friozinho na barriga e cada abraço trocado para nos apoiarmos cada lágrima que deixámos cair ( e não foram assim tão poucas quanto isso). Também ali deixei grandes amigos...uns que mantenho, outros que se foram com o vento.
No Ballet, Musica e Natação neste momento nada resta...apenas as belas recordações de cada palco pisado e de cada piscina nadada na tentativa de vencer mais uma medalha, ou simplesmente porque queria ser eu a mais rápida.
Do trabalho...bem...é cedo demais para falar, porque são eles o meu presente, e neste momento ainda são eles uns quantos. Deixam de ser colegas de trabalho para serem amigos, amigos que se pegam para revelar segredos, sentimentos ou simplesmente para ir ao cinema ou grandes jantaradas...são amigos do presente e espero que do futuro...um dia se saberá.
domingo, 27 de dezembro de 2009
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Sem palavras

O "Ricardo" deu entrada no serviço há uns 2 meses atrás. Vitima de uma queda por acidente de trabalho, vinha em estado grave, ventilado, com valores de pressão intracraniana sempre instaveis e fractura de uma das vértebras dorsais.
Existem casos que nos tocam em particular e sendo um rapaz de 18 anos eu sabia que este seria um deles. Felizmente nos primeiros tempos, só fiquei com ele uma vez o que me permitiu ter um certo distanciamento emocional, mesmo quando auxiliava na prestação de cuidados.
O "Ricardo" felizmente foi melhorando,as pressões intracranianas estabilizaram, começou a acordar do coma, a respirar por ele e a coluna vertebral ficou estável.
Nas últimas semanas ele tinha para nós um olhar bastante presente, mas não havia forma de comunicar com ninguém.
A semana passada colocámos uma televisão para ele se entreter a ver os jogos de futubol, e então aí ele deu o primeiro sinal de que nos entendia. Na altura em que o "Tide" falava mal do Benfica, ele levantou lentamente o braço e de uma forma muito expressiva dobrou os dedinhos fazendo um gesto menos próprio para mandar o "Tide" para um determinado sitio.
Após este momento, não mais voltou a expressar qualquer tipo de opinião ou outra coisa qualquer.
Nesse dia, andei também eu de volta dele bastante tempo, ou porque se atravessava na cama, ou porque a televisão deixava de dar e como é obvio sempre a tentar falar com ele. Pensei que talvez ainda ninguem lhe tivesse dito onde estava e porque estava ali (o que é natural...as rotinas as vezes consomem-nos) ou porque tinha talas nos braços.
No dia seguinte, na distribuição de doentes, calhou-me ficar com ele e foi sem duvida dos melhores turnos que tive.
No inicio do turno ele estava taquicardico fui ter com ele e perguntei-lhe se estava com dores, como é obvio não me respondeu...então disse para fechar os olhos se tivesse dores (o que frequentemente lhe costumavamos dizer ma sem qualquer sucesso) e ele fechou nitidamente os olhos. Fiquei parva, completamente parva. Expliquei-lhe que lhe ia buscar um medicamento e perguntei-lhe o que lhe doia. Ele pegou nitidamente na minha e levou-a a barriga dele. E eu não podia acreditar naquilo que estava a acontecer. Após a medicação ter corrido, perguntei-lhe se ainda tinha dores e ele acenou negativamente com a cabeça. E eu só pensava...ninguém vai acreditar em mim.
Durante a noite ele acordava sistemáticamente com os barulhos provenientes de uma doente ao lado, que até a mim me afligia. Estive com ele e passei-lhe a mão pela face e pelos braços ( e continuo a achar que a teoria de dar a mão é tão valida quanto outras, não me venham com tretas porque se eu estiver numa cama de um hospital, com barulhos que me assustam por todo o lado, vou querer que alguém esteja ao meu lado com tudo o que tiver a direito para me tirar o medo, incluido de mão dada).
Na noite seguinte não voltei a ser a sua enfermeira, mas a ligação emocional que no inicio não a queria ter já cá estava, graças aos dias anteriores. Ajudei a minha colega nos cuidados de enfermagem que ela precisava e voltei a meter-me com ele.
Tinham-lhe tirado o cateter venoso central e colocado duas vias perifericas num dos braços ele olhava muito fixamente para aquilo. Então expliquei-lhe o que era aquilo e porque estava ali, com certeza que ninguém ainda lhe tinha dito ( as rotinas são assim mesmo...pica veia e segue caminho), então ele levantou o braço, apoiou o cotovelo à grade da cama, onde eu também tinha os meus braços apoiados e com um gesto lento passou-me ele a mão pelo cabelo várias vezes. Voltei a ficar sem palavras...acho que ainda agora não as tenho.
Expliquei-lhe que possivelmente hoje ia para um hospital mais perto de casa (as rotinas às vezes fazem com que nos esqueçamos dos doentes, o que é no minimo ridiculo, mas acontece...e acontece com todos)
O "Ricardo" vai ficar assim nos doentes a não esquecer, com uma bela lição...não podemos desistir deles.
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